Os anos 90 foram batizados como a Década do Cérebro, devido às
inúmeras pesquisas desenvolvidas em vários países do mundo.
Uma investigação atual do renomado Instituto Salk (San Diego,
Califórnia, Estados Unidos) examina como o ambiente, o exercício
e a nutrição influenciam a memória e aprendizagem. Visitamos
o Instituto e ouvimos uma palestra da Dra. Henriette van Praag que descreveu
experimentos efetuados e revelou que, em condições enriquecidas
de vida, ratos adultos ativos crescem novas células no hipocampo. Pesquisas
recentes mostram que o crescimento de novos neurônios (neurogenese) também
acontece no hipocampo (região do cérebro fortemente ligada à
memória e a aprendizagem) de cérebros humanos adultos, sob as
mesmas condições. Os ltsresultados indicam que em ambientes enriquecidos
há maior crescimento de dendritos, o número de sinapses aumenta
e a aprendizagem melhora.
Dr. Gerald Edelman, do Instituto de Neurociência de San Diego, derruba
a metáfora do cérebro como um computador, dizendo que a comparação
não é tecnológica e sim ecológica. Ele vê
similaridades entre a rica ecologia da floresta tropical e o desenvolvimento
gradual da rede de neurônios do cérebro. Como uma floresta, o cérebro
está ativo algumas vezes, quieto outras, mas sempre cheio de vida. Semelhante
à selva, o cérebro tem regiões distintas para lidar com
varias funções mentais, tais como pensar, sexualidade, memória,
emoções, respiração e criatividade. Ambos, as plantas
e animais e a rede de neurônios, funcionam tanto de forma competitiva
como cooperativa, respondendo aos desafios do ambiente. A lei da selva como
do cérebro é a sobrevivência.
No workshop em que participamos, Dr. Robert Sylwester, professor emérito
da Universidade de Oregon, examinando o cérebro modular e plástico,
formado por inúmeros sistemas neuronais especializados, afirma que seria
mais preciso caracterizá-lo como uma sociedade cooperativa de sub-cérebros
do que uma massa orgânica única, que processa tudo de forma idêntica.
No nível organizacional mais simples, cada sistema neuronal realiza uma
tarefa especifica. Nos níveis mais elevados, estão conceitos educacionais
relevantes como (1) o cérebro definido por múltiplas inteligências
e (2) o cérebro desenhado para diferenciar entre dicotomias relativamente
abstratas, tais como: verdadeiro/falso; certo/errado; belo/feio.
A lição do cérebro, como um sistema modular, composto de
inúmeros subsistemas que colaboram, permite visualizar uma sala de aula
cooperativa e democrática, onde há interdependência humana,
altamente estimuladora para o desenvolvimento do cérebro social.
Dr. Eric Jensen, famoso escritor e conferencista internacional, no curso que
participamos em San Diego, nos informou que está surgindo um novo enfoque
compreensivo e multidisciplinar, baseado parcialmente em como as pesquisas recentes
sugerem que nosso cérebro aprende.
Uma sala de aula compatível com o cérebro tem algumas facetas
diferenciadas. Emoções positivas são ativadas e engajadas.
Há surpresa, celebrações, música, artes, dança,
movimentação, exercícios e jogos. Estabelece-se um clima
marcadamente positivo. Estimula-se o desenvolvimento de relações
humanas baseadas na confiança. As ameaças são eliminadas.
Os gols a atingir são explicitados claramente. Busca-se construir significado,
definindo razões válidas e propósitos visíveis.
Um ambiente educacional enriquecido não se restringe aos visuais, materiais,
pôsteres, manipulativos, as cores e a alegria. Outras características
são também essenciais. É necessário um adequado
nível de desafio, que pode acontecer em atividades de simulação,
estudos de caso, dramatizações, jogos, excursões, projetos
e experiências de vida. É preciso introduzir novidade como parte
do processo, seja através do contraste ou de coisas novas a realizar.
É fundamental aumentar o feedback, dos colegas, família e a auto-avaliação
pelo estudante, o qual deve acontecer no momento certo, ser especifico e controlado
pelo aprendiz. É importante haver coerência e sentido, oportunizando
escolhas pelos alunos.
Os estudos científicos revelam com clareza o poder das emoções
na aprendizagem e memória. Elas filtram nossos sentidos. Quando fortes
e bloqueadas, causam estreeis, doenças e depressão. Quando produtivamente
expressas, fomentam um clima estimulador para a aprendizagem. Somos mais seres
emocionais do que seres cognitivos; isto é o que ressalta Eric Jensen.
Os professores que efetivamente compreendem que a aprendizagem envolve cérebro,
corpo e sentimentos adotam uma gestão mais competente, tanto das emoções
como da aprendizagem de seus estudantes.
Os rápidos avanços na compreensão do cérebro e seus
processos terão forte impacto na profissão da educação.
Os professores devem começar imediatamente a explorar quais as formas
mais indicadas de responder à revolução da ciência
biológica e da tecnologia de computadores, revolução esta
que dominará o cenário educacional no próximo milênio.
No livro que escrevemos sobre este tema, "O Despertar do Gênio: Aprendendo
com o Cérebro Inteiro", afirmamos que Educar Mentes e Corações
será a tarefa mais estimuladora e desafiante que Pais e Educadores, no
mundo inteiro, deverão enfrentar e vencer no século 21!
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(*) Doutora em Educação