RELIGAÇÃO DOS SABERES E AVALIAÇÃO

A visão de Edgar Morin é voltada para a interação e para a formação de redes de aprendizado e de informação. Não se pode, portanto, conceber um sistema de avaliação, seja no sistema escolar, seja nas indústrias com características compartimentadas.
A indústria sabe quanto perde durante o seu sistema produtivo, se deixar para avaliar no final do processo. Se, ao final, alguns defeitos forem detectados, muito se perdeu de mão de obra, energia e, possivelmente, de matéria prima.
Na educação pode haver a impressão de que não há perdas. No sistema público não se chega a perceber quem está pagando e, no sistema particular e fundacional, calcula-se que o provedor continuará ofertando os mesmos recursos, sem perceber as perdas que acumula.
Se ingressarmos numa sala de cirurgia perceberemos que os saberes estão interligados entre cirurgião, anestesista, instrumentadores e demais profissionais que monitoram sistemas interligados ao evento. A avaliação do paciente é contínua.
Dentro dessa concepção a avaliação do rendimento escolar muda o paradigma. Pelo menos deveria mudar, se a escola e seus mestres estiverem preocupados com os avanços da ciência. Mas, o que, efetivamente, muda?
O evento dá lugar ao processo. Este o primeiro passo. A avaliação não ocorrerá somente nos momentos marcados para se avaliar mas será um processo contínuo de quem está ensinando e aprendendo. Deixar para depois poderá significar perda irreparável no processo de aprender. Diante disso pode-se verificar as escolas que atuam dentro de um processo novo ou arcaico: se as avaliações ocorrem somente nos dias determinados pelo calendário e, fora dele, o professor nada avalia, ela poderá ser compreendida entre as instituições que pensam como a indústria automobilística do início do século XIX. Caso contrário, se as avaliações ocorrem em processo, ela estará atualizada e respondendo aos anseios da evolução da ciência e modo de pensar da atualidade.
Um segundo tópico importante é a questão do medo e da coragem.
Sem falarmos dos que "metem medo nos alunos" e usam as provas como mecanismo de intimidação, o próprio sistema escolar, na medida em que dá ênfase aos calendários de avaliação, cria um clima artificial não sintonizado aos momentos de ensinar e aprender. Isso será tanto mais prejudicial quanto maior for o medo decorrente dessa estrutura. Mas, dirão alguns, que o medo faz parte da vida e da realidade. Tal postura corresponde a um grande equívoco. Quem tem medo está muito mais propenso a perder que vencer. O mais importante é despertar nos alunos e alunas o sentido da coragem para enfrentar dificuldades. Eles não devem temer avaliações, mas, sim, desenvolver a coragem e a segurança para ultrapassá-las.
O corajoso estará mais preparado para a vida que o medroso.
Na medida em que a religação dos saberes reinventa a avaliação através de um processo interligado e sintonizado ela insiste no processo e na coragem e, ai está, sem dúvida, uma importante mudança de paradigma, em se tratando da avaliação.
Um terceiro tópico é a mudança dos boletins de notas por registros e anotações. Os alunos têm o direito de ter a preservação do sigilo em seus resultados. A publicação de boletins, permitindo que uns identifiquem os resultados dos outros, fere este direito à privacidade. As anotações para controle dos professores, coordenadores e conselhos escolares são necessárias e suficientes. A eliminação das publicações que permitem identificação é que representa uma mudança paradigmática que deveria ser buscada por todas as instituições.
Uma outra questão que impõe em relação à mudança dos procedimentos em avaliação é a substituição do "secreto" pelo "transparente".
Algumas discussões em ambientes acadêmicos dão conta de alunos inseguros porque o sistema de avaliação em algumas disciplinas é desconhecido. As respostas nesse campo, como costumam alguns apresentar é muito vaga e poderia ser retratada por uma série de expressões, como as que se seguem: "nas minhas provas cai toda a matéria; tudo é objeto de avaliação; as minhas provas possuem questões e, dentro delas, está o conteúdo que lecionei";
Os acadêmicos continuam na mesma situação anterior porque quase nada foi acrescentado à sua dúvida fundamental: como as avaliações serão feitas, que instrumentos serão usados, quais trabalhos serão apresentados e como serão considerados ou que tempo será ocupado com a avaliação. O sistema abrangerá, também, uma avaliação em processo que envolva a participação em aulas, debates e seminários que ocorrem no decorrer do curso?
A insegurança é geradora deste "secreto" que alguns abraçam como meio de defesa. Este processo é gerador de insegurança e reproduz o medo. A transparência proporciona, exatamente, o contrário: gera segurança e coragem que são duas características que as comunidades humanas precisam ter para enfrentar as incertezas de nosso tempo.
Hoje, saber como uma pessoa será avaliada é um direito. Na legislação brasileira isso está contido na Lei do menor e do adolescente. É um direito do menor e de seus responsáveis.
Os sistemas de avaliação fazem parte do saber do professor e da escola, precisando estar ligados aos alunos para que, conhecendo os caminhos que a outra parte usará, possam reconhecê-las em todas as fases.
Só se compreende esta atitude, dentro de uma visão em que escola, professores e alunos estão interagindo constantemente e, portanto, com seus saberes interligados.
Havendo interação estarão derrubadas outras características necessárias à transformação da avaliação, a saber: imposição, autoritarismo e arbítrio.
Se nós estamos formando pessoas para uma sociedade democrática e formando cidadãos para que respeitem o outro, no ambiente escolar, tanto os alunos devem respeitar seus educadores, como merecem, da parte deles, o mesmo respeito.
O conceito fundamental está ligado à rede de conhecimentos e relações e, não, à linearidade de ações. Não à verticalidade dos procedimentos, mas, sobretudo, à sua horizontalidade.
Por fim, devemos enfrentar a dicotomia entre classificação e promoção.
O sistema competitivo leva uma série de males para dentro da sala de aula. Um deles é o de classificar as pessoas do primeiro lugar ao último lugar. Estes procedimentos permitem, com facilidade, as seleções e as exclusões.
De princípio, uma escola não existe para excluir, nem para selecionar; ela existe para promover. Isto não tem relação alguma com o fato de se promover uma pessoa sem que ela saiba. Essa é outra questão que envolve a eliminação do entulho acadêmico e a falta de competência em ser capaz de ensinar a quem tem dificuldade de aprender. Em "Sete Saberes..." Edgar Morin insiste que os professores desses tempos de transformação e imprevisibilidade devem preparar-se para lidar com turmas que tenham reais dificuldades de aprender. Qual a razão? Excluir nada resolve e, depois de se aplicar inúmeros meios que recuperem os alunos, promovê-los. Trata-se, portanto, de outro paradigma, de uma nova visão e de uma nova postura frente à educação.

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