EDUCAÇÃO INCLUSIVA: COM OS PINGOS NOS "IS"
Rosita Edler Carvalho
A necessidade de colocar os pingos nos "is" na proposta de educação
inclusiva explica-se e justifica-se devido aos inúmeros equívocos
que têm sido cometidos em nome do paradigma da inclusão.
Antes de fazer alusão a esses equívocos parece-me oportuno rever,
ainda que rapidamente, o que entendemos por paradigma.
Parafraseando Kuhn (1962), trata-se de um esquema de interpretação
básico, que compreende pressupostos teóricos gerais, leis e técnicas
adotadas por uma comunidade de cientistas. O paradigma atua como um exemplo
aceito em consenso, envolvendo teorias e orientações para as aplicações
práticas. O paradigma acaba sendo um modelo de ação, no
caso dos objetivos deste texto, pedagógica e social.
Novas idéias acerca de fatos e fenômenos aceitos provocam uma
espécie de crise levando a uma ruptura com o paradigma vigente. Surge,
assim, um novo paradigma, fruto de sentimentos crescentes por parte da comunidade
de estudiosos de um tema, sobre a necessidade de se reverem os fundamentos e
as aplicações do modelo em curso. Acordos entre os cientistas
sobre os princípios que devem reger os avanços numa determinada
área de conhecimentos, faz com que o novo paradigma se converta, de fato,
em modelo de ação e reflexão.Assim tem sido na ciência
e na tecnologia; assim tem sido em suas aplicações na educação.
No caso da aprendizagem e participação de todos os educandos,
sem discriminações, evoluímos de modelos centrados nas
dificuldades apresentadas por muitos alunos, para modelos centrados no processo
ensino-aprendizagem, na certeza de que todos podem aprender.
Enquanto as dificuldades de aprendizagem eram foco das reflexões, sob
a égide do modelo clínico, os alunos ficavam marginalizados e
segregados em ambientes restritivos. Mas, as importantes contribuições
oriundas da psicologia, da neurociência, das ciências políticas,
dentre outras, fizeram-nos evoluir de concepções determinísticas
e excludentes para outras, centradas nos direitos humanos e em mais profundos
conhecimentos de como se dá a aprendizagem.
O paradigma da inclusão (termo polissêmico) vem se impondo como
a matriz de pensamentos e de ações que devem nortear a participação
(como integração) de todos na vida escolar, social, política,
econômica... independentemente das características pessoais, de
gênero, etnia ou do nível sócio-econômico de cada
um.
O tema da inclusão precisa ser analisado sob a premissa básica
do direito de todos à educação de qualidade, entendida
como exercício de cidadania.
Um dos equívocos acima referidos sobre o paradigma da educação
inclusiva é o de supor que se trata de uma proposta dirigida aos alunos
portadores de deficiência, apenas. Por ser inclusiva, diz respeito a eles,
também, merecendo uma série de reflexões específicas.
Essa constatação nem nos autoriza ao desmonte da educação
especial, enquanto um conjunto de saberes e práticas pedagógicas
historicamente construídos, nem nos autoriza a praticar a inclusão
dos portadores de deficiências, como inserção física
apenas.
As repostas educativas de boa qualidade, para todos, com todos e por toda a
vida devem nortear os estudos e pesquisas da comunidade dos cientistas da educação,
objetivando a remoção das barreiras para a aprendizagem e para
a participação de qualquer dos educandos e educandas.
Não se trata de tarefa fácil, sabemos disso. Mas como todo processo,
implica em tempo, flexibilidade e desejo de contribuir para que nossa sociedade
seja justa e equânime.
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